Como tocar o barquinho, caro Boechat?

11 de February, 2019 - 16:35 Atualizado em 12/02/2019 00:29

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Ricardo Boechat morreu em queda de helicóptero no início da tarde desta segunda (11) – Foto: Reprodução/Instagram

Faz pouco tempo que me interesso por radiojornalismo. Na faculdade, achava que não tivesse qualquer talento para falar, já fui rotulada de “voz de taquara rachada” e ouvi de um professor que a única coisa que poderia fazer no rádio era ler o horóscopo – coisas também do machismo. Desde que fui trabalhar no Jornal de Brasília, em 2009, passei a ouvir diariamente o noticiário no rádio. E comecei a pensar que aquele negócio pudesse ser bem legal. Quando conheci o Ricardo Boechat, quase oito anos atrás, e via como ele se divertia ali, tive certeza. 

Desde agosto do ano passado, quando comecei na Rádio CBN, passei a revezar minha sintonia entre o 90,5 e o 95,3, preciso confessar. Perdi muitas vezes os comentários dele. E ainda nesta segunda-feira (11), quando soube do acidente fatídico, sofri porque justamente neste dia eu não sintonizei na Band News FM.

Boechat me intrigava em como ele conseguia traduzir meus pensamentos e, por vezes, pensar tão diferente de mim; me desconsertava com o ateísmo; me deixava perplexa em como era corajoso, em como enfrentava as ameaças de processos; etc.

Conhecia a “Doce Veruska” como se ela fosse colega de trabalho; várias vezes, procurei uma imagem dela no Google pra saber que cara tinha a mulher daquele senhor, que dirigia um Twingo ano 2001, que vez ou outra o deixava na mão. Ele contava no ar. Dessas e de outras peripécias que vivia na vida real.

Talvez por isso ele fosse tão verdadeiro. Dona Mercedes, por exemplo, é quase da cozinha lá de casa: poderia ouvi-la agora, com o sotaque argentino, reclamar do comportamento do filho. Valentina, Catarina, e até os desenhos que elas faziam… como se fossem da minha família. E da de todo mundo que sintonizava o rádio na Band News FM todos os dias de manhã.

Não raro, ouvia-se Boechat dar “espanadas” com a produção, corrigir repórteres ao vivo, reclamar da importância – ou falta dela – de reportagens que entravam no ar… ele soava muito verdadeiro.

Difícil tocar o barquinho, caro Boechat, a quem acho que só vi pessoalmente uma única vez, recebendo um prêmio jornalístico. Difícil tocar o barquinho incólume, como se nada fosse. Difícil tocar o barquinho com a certeza de que aqueles editoriais tão intensos – e muitas vezes polêmicos – não mais nos ajudarão a entender os cenários das decisões.

Difícil mesmo tocar o barquinho sabendo que não tem “hasta mañana”.

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