Dia da Mulher: sem parabéns, por favor!

8 de March, 2019 - 15:21 Atualizado em 08/03/2019 22:01

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O Dia da Mulher poderia ser mesmo um dia feliz, como ouvimos desde que acordamos até a hora de dormir nos dias 8 de março. Mas nunca é. São flores, reais e virtuais; descontos, presentes, desejos de dias melhores… Mas poderia ser mesmo o dia do homem: dia de refletir sobre todas as formas com que eles nos matam todos os dias.

Acordei nesta sexta-feira (8) dizendo que este é o dia em que mais passo raiva no ano. E não minto. Sofro por ver opressores enviando flores, bombons, presentes. Sofro por ver que a maioria das mensagens que nos enviam nos reduzem à doçura e à beleza. Sofro por saber que ainda ontem uma mulher morreu depois de ter sido violentada pelo cunhado e queimada pelo namorado. Sofro por ouvir pessoas (homens e mulheres) perguntando se ela estava mesmo sendo abusada ou se era traição.

Mas, em todos os dias desta vida, eu sofro de indignação, por ser subjugada no trânsito, no trabalho, no comando dos meus negócios. Ainda me perguntam quem me deu o carro, parabenizam meu marido pelo meu empreendimento e pedem desculpa para ele quando sou assediada no Carnaval.

Todos os dias, para mim, são dias de luta. Dias de lembrar a todos os homens que estão ao meu redor que aquela piada é machista; que este corpo é meu; que eu escolho o caminho que quero fazer; e, sim, não sei trocar o pneu, mas também não preciso saber – e isso não me faz mais ou menos independente.

Sou cercada de mulheres poderosas e empoderadas: que criam os filhos sozinhas, como minha mãe; que desafiam o machismo e aprendem a ler sozinhas, como a minha avó; que são o esteio de uma família de quatro homens, como minha falecida tia Néia; que rechaçam o machismo em todos os minutos, como a Dindinha; que defendem a família e por ela são capazes de qualquer coisa, como tia Deca; que são pura força e resiliência, como minha sogra; que não conhecem o impossível, como a Polliana; que são feitas inteirinhas de liberdade, como a Roberta; que militam em cada respirar, como a Chris; que sustentam o mundo inteiro nas costas, como a Marina; que conjugam a leveza e a dureza da maternidade com maestria, como a Keylle; que, do alto dos seus 15 anos, me ensina sobre ativismo, como a Anna Clara.

São muitas as Dandaras e Marielles que me inspiram, que me conclamam, que me fortalecem. Eu luto. Em cada movimento que eu faço. Contra o machismo; contra a violência, que não é só física; contra quem acha que eu sou doçura e beleza; contra quem acha que meu corpo é público; contra quem acha que não sou capaz; contra quem acha que eu sou obrigada a limpar, lavar e cozinhar, só por que está escrito “sexo feminino” na minha Certidão de Nascimento.

Obrigada pelas flores virtuais que me mandaram hoje. Mas eu dispenso. Quero a minha parte – e a de todas as outras mulheres – em respeito.

E não, não há motivos para “parabéns”. Há cada vez mais motivos para lutar. E há muito, mas muito mesmo, espaço para reconhecimento.

Trabalhei muitos anos em redações de jornais e, em uma delas, vez ou outra, ouvia de uma colega: “Já reparou que são as mulheres que levam isso aqui nas costas?” Mas quem subia para as reuniões na diretoria, as de tomada de decisão mesmo, sempre foram os homens. Ainda são.

E hoje, mais uma vez, eu grito: BASTA!

Millena Lopes

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