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Um mundo paralelo de trabalhadores, estudantes, famílias e toda a sorte de marginalizados sobem e descem todos os dias na área central da capital

 

Calcula-se que um milhão de pessoas passem pelo maior terminal de ônibus urbano de Brasília todos os dias – Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília

– Giz que mata barata e mata formiga é R$ 1.

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O texto era repetido tantas vezes e por tantas pessoas ao mesmo tempo que, logo, tornava-se um coro de “um real”. Mas os gizes inseticidas eram maioria. Tanto que os passantes mal notavam as calcinhas, os brinquedos e as outras bugingangas vendidas pelo mesmo preço no caminho que separa o Conjunto Nacional da Rodoviária do Plano Piloto. Era 1999 quando cruzei, pela primeira vez, a fronteira do principal terminal de ônibus da capital federal.

E, sempre que volto lá, tenho vontade de escrever sobre aquele misto de correria, vendedores informais, moradores de rua, batedores de carteira, passageiros apressados e pedintes; o sobe-e-desce das escadas que nunca funcionam; o barulho dos ambulantes em anúncios quase incompreensíveis; e a zoada dos ônibus que chegam e saem em vai-e-vens. Agora, 20 anos depois, eu arrisco dizer que até gosto de andar pela Rodoviária do Plano Piloto, embora quase nunca consiga ir lá. Não a pé, com tempo, perguntando o preço das mercadorias jogadas sobre lençóis no chão de cimento ou no asfalto; batendo papo com os caras que ainda hoje compram o vale-transporte e até o cartão de tíquete alimentação; com os mendigos, que se alimentam daquela confusão; com os empregados das empresas de ônibus; e com cada um dos que passam ali, beeem agarrados às bolsas e mochilas, e mal têm tempo de reparar ou de ouvir o que se passa ao redor.

Era início da tarde desta quarta-feira (22), quando cruzei a Rodoviária pela última vez, desde a plataforma superior, até a estação do metrô. E quanta coisa se vende ali! Vestido, pen drive, saia, sanduíche, blusa, bolo, biscoito, roupa de malhar, açaí, pastel, caldo de cana, tapete, livro, utensílios domésticos, brinquedo, rasteirinha, sapatilha, mais comida, bugiganga, muitas bugigangas. Tem exposição de arte, malabaristas, tocadores de violão… Não vi giz que mata barata!

A impressão que eu tenho é que ali é um mundo paralelo, uma comunidade de um milhão de pessoas em pleno centro da capital do País – aposto que a extrema maioria dos moços engravatados do Congresso Nacional não façam ideia do universo que ferve ali.

Mas, quando é época de campanha eleitoral, minha gente, os candidatos se esbarram na disputa por mãos e minutos de atenção para despejarem promessas. É a agenda mais certeira do fim de tarde. É o meio de se alcançar mais pessoas de tudo que é canto desse Distrito Federal e Entorno – imagina aí, um milhão de pessoas indo e vindo. No restante dos meses e anos, raramente se vê político por ali. Um ou outro que milita por causas populares ainda dá as caras em agenda de manifestação. Por que a Rodoviária também é endereço certo para protestos, pregações e panfletagem – um milhão! (Quando eu era criança e ouvia falar em multidões, sempre pensava: “Se cada um me desse um centavo…”)

Das 6h às 22h, os trabalhadores, os que buscam emprego, os que tentam alcançar os hospitais e os estudantes, além dos comerciantes e dos que já acordaram ali, são os habitantes da comunidade paralela. Quando a noite cai, sobram as prostitutas, os mendigos, os craqueiros, os que perderam o último ônibus, os trabalhadores noturnos… e aí o mundo paralelo tem como protagonistas os marginalizados.

Um terminal de ônibus qualquer, diria qualquer um viajado pelas capitais desse mundo. Mas não é! A vida que fervilha na Rodoviária do Plano Piloto é peculiar, tem uma dinâmica própria e até certa beleza. Apesar de todo o caos.

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